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Blockchain e Impactos Sociais

04/12/2018

Menos de uma década após serem apresentadas ao mundo, as criptomoedas alcançaram em escala global um volume financeiro (especulado) invejado em qualquer mercado de capitais. No entanto, não temos como prever o quanto as criptomoedas vão permanecer de fato como uma moeda de valor no cenário econômico mundial. A maior chance de longevidade cai sobre o “blockchain” – tecnologia disruptiva de registro e validação de transação (compartilhamento) de dados virtuais, que representa transações com valor financeiro (como o Bitcoin e muitas outras criptomoedas). O blockchain então virou fonte de inspiração de inúmeros projetos de grande benefício à sociedade em vários aspectos, e é com esse objetivo que este conteúdo foi produzido, com foco na ilustração de vantagens do uso do blockchain, sem entrar em detalhes técnicos e conceituais por se tratar ainda de um assunto complexo de pouco conhecimento geral.

 

O blockchain como recurso tecnológico possibilita uma grande quantidade de aplicações, algumas com nomes técnicos já estabelecidos pelo setor e outras podem ser identificadas pelo projeto referenciado com alto potencial de utilidade. Tais exemplos de aplicações são: o registro de propriedades e suas respectivas transações (smart property); o desenvolvimento de aplicativos descentralizados (Decentralized Applications ou DApps);  auditorias permanentes;  o desenvolvimento de contratos auto executáveis (smart contracts); institucionalização de pessoas jurídicas que realizam sua própria gestão (Decentralized Autonomous Organizations ou DAOs); mecanismos de financiamento; realização de micropagamentos; dinamização de preços; sistemas de reputação; aplicações tecnológicas de gerenciamento de precisão na agricultura; sistemas de governança independentes; e muitos outros. Ainda, por característica, os protocolos de blockchain podem ser de acesso público, como o Bitcoin, e acesso privado – ou permissionado – exclusivo para usuários conforme o objetivo do protocolo, são os casos dos protocolos DLTs (distributed ledger technology).

 

A característica de compartilhamento de dados acompanha uma tendência global que surgiu silenciosamente no mundo e hoje domina os principais mercados de tecnologia e consumo. Empresas como Airbnb, Uber, Amazon, Youtube, Wikipedia e claro, Google e Facebook, entre muitas outras [1], não tem a propriedade do conteúdo, serviço ou produto negociado que é compartilhado num grande banco de dados disponível aos usuários-consumidores.

 

“São negócios de serviços descentralizados, que além de seu resultado econômico para o negócio, tem gerado grande impacto positivo na sociedade, tais como, acesso à renda, distribuição econômica, acesso à informação, liberdade de expressão, produção cultural gratuita, comunicação instantânea e outros”, confirma o teórico social Jeremy Rifkin (2017) [2].

 

O blockchain tem alcançado reconhecimento cada vez maior por idealizadores de projetos e programadores. Fontes indicam mais de 86 mil projetos relacionados com a tecnologia do blockchain, com média anual de mais de 8 mil novos projetos [3]. Outras fontes, como o Fórum Econômico Mundial, antecipam que até 2025, aproximadamente 10% do PIB mundial será destinado a projetos de blockchain.

 

Ainda que proveniente do mercado de criptomoedas, o blockchain não precisa se limitar a uma operação financeira. Segundo a Outliers Ventures – umas das maiores empresas de investimento em negócios de blockchain – cerca de 35% de mais de mil startups de blockchain identificadas estão no setor de finanças e seguros, enquanto 44% representam os setores de informação e comunicação [4].

 

 

Dessa forma, os projetos de aplicações descentralizadas ou de dados compartilhados, têm um potencial de demanda por grande parte da população, desde que possibilitem a geração de um bem social, ou seja, atendam a um problema social percebido por uma sociedade.

 

O Brasil é considerado hoje a oitava economia do mundo (tendo o PIB como referência), porém apresenta desempenho muito baixo em indicadores sociais como o IDH (78º lugar no ranking mundial) e índice Gini de desigualdade social (79º lugar no ranking mundial), portanto, um país carente de projetos que propiciem o desenvolvimento social. São vários setores de necessidade, tais como geração e distribuição de energia elétrica, programas de ensino, processos eleitorais, governança política com transparência e acesso à informação, modernização dos serviços de saúde e segurança pública e muitas outras demandas. Tendo essas necessidades em grande escala há grandes oportunidades para projetos que atendam uma demanda da sociedade e que possibilitem a geração de um impacto social positivo através do blockchain.

 

Especialistas, hoje, afirmam que o blockchain vai afetar todas as grandes indústrias e até mesmo alterar o modo como as pessoas e as sociedades interagem [5]. “Tecnologia que propicia o aumento da eficiência, contribui com a redução de custos e promove a transparência pode ter implicações significativas para vários setores dedicados a gerar impacto social. O potencial para transformar sistemas e ultrapassar a infraestrutura pode permitir soluções que antes não eram consideradas possíveis”, afirma Doug Galen.

 

Projetos de blockchain que visem proporcionar um serviço para um bem social não são particularidades de países em desenvolvimento apenas. Já existem várias iniciativas interessantes no mundo todo. Alguns exemplos de iniciativas de blockchain de impacto social são:

  • Rastreabilidade de produtos e serviços em cadeias de fornecimento de indústrias complexas, tais como têxtil, vestuário, proteína animal (carne bovina, suína e aves), produtos de origem florestal, e também descarte de produtos recicláveis;

  • Novas fontes de geração e distribuição de energia elétrica são uma realidade em países desenvolvidos e crescem exponencialmente, tornando cada vez mais acessível a instalação de painéis solares em residências. O blockchain oferece meios para mapear e registrar cada Watt de energia gerado, permitindo a comercialização direta entre usuários;

  • Evolução dos sistemas de auditorias (financeiras) através da validação das transações por meio de blockchain, migrando a auditoria de um processo amostral para integral de confiabilidade;

  • Áreas de risco com relação à escassez de água podem mapear o volume de água consumida por organizações, fazendas agrícolas e gerir de forma estratégica a autossuficiência de recursos hídricos em determinada região, bem como analisar também o volume de efluentes descartados num mesmo corpo hídrico;

  • Novos mecanismos de votação, mais seguros, autônomos e confiáveis podem substituir facilmente os tradicionais e antigos formatos impressos (como na maioria dos outros países) ou o meio digital com sistema de segurança centralizado, como o usado no Brasil, o que oferece risco de violação;

  • Criação de um ecossistema de mobilidade urbana integrando veículos autônomos, sistemas de delivery, compartilhamento de carros e até vias de ciclismo;

  • Sistemas de banco de dados para refugiados que não possuem identidade, histórico educacional, profissional e médico.

 

IMPACTO SOCIAL ATRAVÉS DA RASTREABILIDADE

 

O Blockchain é uma rede global para mediação de confiança e transparência. Embora muita atenção e dinheiro foram gastos em aplicações financeiras, existe uma possível abordagem muito promissora para as relações de cadeia de suprimentos em seus vários elos, cuja complexidade e diversidade de interesses representam exatamente os tipos de desafios que essa tecnologia procura resolver.

 

A gestão da cadeia de fornecimento é hoje vista como uma das áreas com maior potencial na aplicação de blockchain e protocolos permissionados (DLT), com projetos sendo desenvolvidos em boa parte por grandes corporações que operam com manufaturas que envolvem várias mãos no processo produtivo. Essa tecnologia pode revelar informações até então ocultas e permite que os usuários transfiram bens intermediários à medida que evoluem nas fases de produção, beneficiamento, acabamento, expedição e entrega de uma cadeia de suprimentos completa. Um projeto de blockchain para apoiar a rastreabilidade de produtos, processos e serviços pode proporcionar às empresas uma flexibilidade muito maior para identificar mercados e risco de preço, capturando o valor investido no processo em qualquer elo da cadeia, resultando em um uso mais eficiente dos recursos para todos.

 

Como forma de garantir que os elos de produção dos setores produtivos não vão fazer uso de empresas irregulares ou com más condições de trabalho, é necessário criar um complexo sistema de monitoramento e rastreabilidade em cada elo da cadeia de fornecimento. O uso da tecnologia de blockchain possibilita o desenvolvimento desse sistema de forma integrada, ou seja, dentro de um banco de dados único de rastreabilidade que possibilita um controle muito mais eficiente da cadeia de fornecimento.

 

Os projetos de blockchain para rastreabilidade de produtos e serviços na cadeia produtiva podem beneficiar os clientes diretamente, pois o controle efetivo por meio do blockchain reduziria quase na totalidade o risco trabalhista na cadeia de fornecedores. Nos últimos anos, vários casos de denúncias de trabalho degradante foram registrados e extensamente divulgados, prejudicando organizações globais e nacionais, causando perdas e desvalorização da marca, principalmente de empresas de capital aberto. Os milhares de trabalhadores desse setor terão esse reforço na garantia de uma condição adequada de trabalho. E, com relação a impactos mais amplos na sociedade, temos municípios e regiões inteiras, normalmente polos industriais que seriam juntamente impactados positivamente de várias formas, por exemplo, via melhoria das condições de trabalho e renda de familiares, além de garantia dos benefícios previdenciários. São exemplos de impactos positivos em grande escala e, portanto, demonstrando a viabilidade através de interesses dos stakeholders.

 

 

 

IMPACTO SOCIAL DOS SERVIÇOS DE AUDITORIA

 

Segundo recente estudo feito pela ONG Transparency International [6], mais de 66% de 180 países no mundo apresentam uma nota baixa de credibilidade com relação aos sistemas de prevenção à corrupção, o que demonstra um forte aumento de questionamentos com relação aos processos atuais de garantia das informações, hoje centralizado em instituições governamentais e órgãos reguladores. Quanto maior a representação financeira envolvida, mais os serviços de auditoria são demandados em todas as esferas de negócios, seja no setor privado, governamental e até mesmo da iniciativa social sem fins lucrativos. Porém, apesar da grande importância que os mecanismos de auditoria têm para o mundo dos negócios, esse é um setor que não é incorruptível e não garante a ausência de falhas de execução ou omissão do escopo de verificação.

 

Na formatação do blockchain para a criação das Bitcoins, o conceito de “asseguração” das transações foi configurado através da figura do “minerador”, responsável pelo processo de verificação e validação das transações com valor financeiro, processo denominado como “proof of work” (prova de trabalho), em praticamente todos os protocolos de blockchain desenvolvidos. No caso do Bitcoin, qualquer usuário pode se tornar um minerador da rede, por isso o blockchain carrega essa característica de tecnologia descentralizadora. Porém, para o setor de auditorias, por se tratar um serviço exclusivo, seria então um protocolo centralizado também característico para os DLTs.

 

Mesmo assim, a tecnologia de blockchain para a realização de projetos de auditoria pode ser considerada disruptiva, pois remodela a estrutura de trabalho, usualmente padronizada nesse setor de prestação de serviço. Os processos baseados em verificação amostral e periódica seriam convertidos em processos em tempo real e sistêmicos. Assim, toda e qualquer transação (de bens, recursos, informações, dados, etc.) registrada em sistemas da organização auditada será compartilhada, acessada, verificada e validada por uma organização de auditoria responsável por um software de verificação.

 

Através da mudança para um monitoramento integrado e efetivo em 100% dos processos internos nas corporações, as organizações serão as grandes beneficiadas, tendo um ganho em garantia e confiabilidade como nunca antes fornecido por qualquer empresa de auditoria. Maior controle através do blockchain gera menor risco, menos gastos com gestão de compliance, controladoria e principalmente com auditorias externas, consideradas de custo significativo devido à alta qualificação necessária dos profissionais e grande quantidade de tempo destinado ao processo. Empresas com menor risco são beneficiadas com maior reconhecimento e credibilidade do mercado, bem como as próprias instituições financeiras que poderão oferecer um novo formato de sistemas de auditoria baseados em projetos de blockchain. Os stakeholders impactados positivamente pelo processo de auditoria com uso de blockchain são públicos externos ao negócio, mas indiretamente relacionados, tais como acionistas e investidores, concorrentes - devido à garantia das práticas de conformidade entre as empresas do setor - e principalmente governos e municípios, com a garantia de processos em conformidade com as leis, tais como, licitações de órgãos públicos e outros.

 

IMPACTO SOCIAL DA COMERCIALIZAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA

 

O uso da tecnologia do blockchain para comercialização de energia elétrica vislumbra uma sociedade onde pessoas, moradores usuários de eletricidade, possam gerar sua própria energia elétrica através de painéis fotovoltaicos e vender essa energia excedente dentro de uma rede específica para vizinhos ou outros usuários dessa rede. Neste cenário, um protocolo de blockchain aberto e, portanto com maior potencial de escala.

 

Tendo a unidade de medida megawatt como unidade de valor, qualquer transação num sistema de distribuição de energia elétrica pode igualmente ser registrada e validada via um programa de blockchain.

 

O Brasil, por sua característica geográfica (tropical) e dimensão, possui uma média de incidência solar superior a países como Estados Unidos, China e Alemanha, países hoje com maior capacidade instalada no mundo, demonstrando a viabilidade e potencial enorme dessa fonte energética para o Brasil.

 

 

O cenário imaginado de impactos positivos de projetos de blockchain para comercialização da energia elétrica excedente entre usuários residenciais apresenta dois lados bem específicos. Temos, de um lado, um beneficiado direto (pessoa física, morador residencial) que investiu em placas solares e obtém redução de seu gasto com o consumo de energia elétrica. Ele ainda tem a possibilidade de obter retorno financeiro com a venda da energia elétrica excedente para outros usuários.

 

Projetos semelhantes já estão em fase de desenvolvimento e implementação no mundo, onde a regulação do país permite a venda de energia entre usuários e onde há incentivos para investimento na aquisição de painéis fotovoltaicos.

 

CONCLUSÃO

 

A partir dos modelos de projetos exemplificados neste artigo buscou-se visualizar como a tecnologia de blockchain pode gerar impactos positivos para uma sociedade de maneira mais ampla. A interconexão entre públicos numa sociedade compõe uma malha de dependência e impacto (positivo e negativo) de forma contínua, ou seja, stakeholders interconectados por meio das relações de produção, consumo e regulação. Além de seu caráter disruptivo por meio dos serviços de descentralização, contraponto à concentração do poder econômico nos setores privados e governamentais, os projetos de blockchain podem ser sustentados e fortalecidos sistematicamente através do ganho em escala da mesma forma com que as novas tecnologias têm conquistado a sociedade nos últimos dez anos, garantindo assim a sua longevidade independente do cenário das criptomoedas no futuro.

 

Podemos consolidar essa visão dos impactos sociais positivos nos projetos abordados como exemplo na figura abaixo.

 

 [1] BRAND FINANCE, The annual report on the world’s most valuable brands. 2017.

 

[2] A TERCEIRA REVOLUÇÃO INDUSTRIAL: A NOVA E RADICAL ECONOMIA COMPARTILHADA. 2017.

 

[3] TRUJILLO, Jesus Leal. FROMHART, Steve. SRINIVAS, Val. Evolution of blockchain technology. 2017

 

[4] VENTURES, Outlier. 10 Predictions for the Blockchain Industry in 2017. 

 

[5] GALEN, Doug. Blockchain For Social Impact, Moving Beyond The Hype. 2018

 

[6] MOREIRA, Patricia. Corruption Perceptions Index 2017. 2018

 

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