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A INCLUSÃO DO SETOR DE RECICLAGEM NO CICLO DA CADEIA RESPONSÁVEL DE FORNECIMENTO

O trabalhador informal é a base da mão de obra do setor de reciclagem em vários países no mundo. Com isso, a falta de formalização e registro do emprego desencadeia uma gama de desafios nas esferas econômica, social e ambiental, criando um ciclo de manutenção da pobreza em um sistema produtivo de grande importância para a produção indústria: a reciclagem de materiais de bens de consumo.


A consolidação da cadeia de reciclagem de PCRs (Post-Consumer Recycled materials – como papelão, papel, plástico, vidro e metais) dentro do fornecimento responsável é uma prática que vem se fortalecendo, em nível global, no portifólio de projetos de responsabilidade social das organizações. Parte dessa tendência se justifica pela realidade escancarada que esse setor vive: catadores de lixo em “situação de rua”, terrenos com acumulação de “lixo”, depósitos irregulares (“lixões”) vistos em áreas de fácil acesso. Vemos cooperativas de reciclagem funcionando sem muros, galpões ou estrutura adequada, e condições de trabalho que demonstram o “modus operandi” desse setor, uma situação que não é exclusividade do nosso país.


Essas condições podem ser vistas em grande parte dos países em desenvolvimento, principalmente na Ásia, onde há cidades e bairros inteiros que vivem da “economia do lixo”. Onde há um sistema econômico, há trabalhadores, porém, neste caso, trabalhadores informais.


São trabalhadores informais, pois não fazem parte de uma estrutura operacional formalizada por entidades públicas, privadas ou da sociedade civil. Eles atuam individualmente ou em grupos. A condição de trabalho informal agrega outros problemas, tais como, renda injusta (pois não possuem sindicatos ou movimentos organizados para negociar maior valor de remuneração), impossibilidade de acesso aos benefícios da seguridade social pela informalidade de trabalho, condições inseguras e insalubres de trabalho e moradia, manutenção da pobreza pela falta de educação básica para os trabalhadores e filhos que são envolvidos nas atividades.


Algumas das realidades encontradas globalmente nesse cenário:

  • No Brasil, há uma população de catadores e cooperativas de reciclagem que, além das precárias condições de trabalho, vivem de uma remuneração baixa decorrente de intermediadores no processo de compra e venda de resíduos aos agregadores na indústria de reciclagem, que acabam absorvendo parte da remuneração do setor. A falta de uma renda justa e ausência de benefícios de seguridade social, gera um desinteresse grande por parte dos trabalhadores nesse setor, criando uma zona de trabalho temporário em alguns períodos de crise ou desemprego.


  • Na Colômbia, que pode passar por um potencial colapso no sistema de reciclagem devido à falta de aterros regularizados, há muitos catadores de lixo que moram ao redor dos lixões, vivendo e jogando seus próprios lixos nas redondezas e potencializando os impactos no ecossistema.


  • Na Índia, a baixa escolaridade afeta a capacidade de compreensão dos métodos de segurança do trabalho e como lidar com resíduos contaminados de forma segura. Os índices de abusos contra crianças e mulheres também se destacam nessas condições de vulnerabilidade social.


  • No Vietnam, onde é comum a existência das “scrap villages” (vilas do lixo), os trabalhadores moram nos bairros destinados aos descartes do sistema público e permanecem quase o dia todo trabalhando na separação e transporte de resíduos para conseguirem uma renda muito pequena. A pouca regulação existente não é clara, prejudicando o desenvolvimento desse setor.


  • Países desenvolvidos também contribuem enormemente com os impactos sociais na cadeia de reciclagem, uma vez que apresentam os maiores índices de consumo per capita. Os EUA exportam 56% de todo plástico gerado para países como Vietnam, Turquia, Malásia, Senegal e China. Este último, passou a proibir a importação de resíduos do EUA pois os resíduos recicláveis não eram segregados de forma seletiva, ou seja, por tipos de plásticos, papéis e vidros, devido falta de conhecimento e conscientização da população¹ junto à um sistema de coleta eficiente equivalente a população de maior consumo per capita do mundo. Este demonstra ser o maior gargalo do setor de reciclagem do país norte américa.

  • A Alemanha segue algumas diretrizes europeias – “EU Packaging Directive” e “Basel Convention” – que buscam aumentar a transparência na exportação de resíduos perigosos e proteção do meio ambiente dos países importadores. Tais diretrizes proíbem a exportação de resíduos para países que não tenham uma estrutura regulatória ambiental considerada consistente. No entanto, a Alemanha é um dos maiores exportadores de resíduos para Malasia², país que hoje enfrenta um descontrole generalizado em decorrência da importação de resíduos de vários outros países (junto com EUA, Japão e Reino Unido).


Faltam iniciativas por parte dos governos na promoção e incentivo ao empreendedorismo nesse setor, atração de mão de obra (formalizada/registrada) e ganhos de produtividade, pois se trata de um setor que necessita de volume para se fazer viável.


Perante tantas dificuldades nas esferas sociais, ambientais e principalmente econômicas, abre-se uma porta para projetos que tenham como objetivo melhorar as condições de produção e trabalho desse setor.


Enquanto de um lado temos as indústrias mais preparadas para aceitar materiais de origem reciclada, do outro lado, temos um setor que não está conseguindo se estruturar de forma organizada para suprir essa demanda e aproveitar essa oportunidade. Com isso, as empresas desenvolvem seus próprios programas em suas cadeias para garantir volume e qualidade no fornecimento de materiais reciclados.


Algumas iniciativas são setoriais, permitindo às organizações juntarem forças para lidar com esses desafios, ganhando tempo, pois contam com uma estrutura de projeto já implementada e conduzida por especialistas. A iWrc (Inclusive Waste Recycling Consortium) é uma modalidade de consórcio entre organizações que centralizam suas compras de PCRs proveniente de um grupo de cooperativas de reciclagem que vem passando por um processo de desenvolvimento e melhoria das condições de trabalho – como um critério de participação das cooperativas – com base na metodologia de gestão social Social Fingerprint®, desenvolvido pela SAI (Social Accountability International). A iniciativa, apesar de recente, já conta com parceiros como Johnson&Johnson, Kimberly-Clark, HP, Sinctronic, Flex, FEMSA e Repic.


Um dos motivos de ascensão deste tema somente agora – de forma tardia perante questões socioambientais – pode ser proveniente da falta de clareza de sua relevância como um tema no mural desafios da sustentabilidade. Essa percepção pode ser vista também na pesquisa “The 2020 Sustainability Leaders”, da GlobeScan e SustainAbility³, onde 9% dos especialistas em sustentabilidade no mundo colocam a econômica circular como tema de “urgent action”, em 17º numa lista de 19 outros temas. Enquanto que ao mesmo tempo, o tema “transformação da cadeia de fornecimento” aparece na 4ª posição com 33% das menções. Isso sugere uma falta de conexão na visão das empresas sobre como a cadeia de reciclagem também está inserida na cadeia de fornecimento.


Portanto, o setor de reciclagem de materiais, normalmente entendido como parte da cadeia downstream de produção, passa e demonstrar sua importância como um ator na cadeia upstream de fornecimento de materiais para a indústria, se posicionando agora com a relevância que merece para que seja incluído no ciclo da cadeia responsável de fornecimento das áreas de Suprimentos e Relação com Fornecedores. Não se trata, contudo, de uma questão de reconhecimento da importância, pois a cadeia downstream também tem sua relevância para o desenvolvimento sustentável, principalmente quando pensamos na economia circular, que também envolve o setor de reciclagem. No entanto, o fato de colocar o setor na cadeia downstream de fornecimento, proporcionará uma maior visibilidade em relação à sua realidade e seus desafios nas dimensões econômica, social e ambiental. Dessa forma, coletores e recicladores passarão a integrar o radar e sistemas de monitoramento e melhorias que o mercado vem implementando em seus fornecedores, subfornecedores, subcontratados, prestadores de serviços.


¹ https://www.theguardian.com/us-news/2019/jun/21/us-plastic-recycling-landfills

² “Greenpeace Malaysia”, THE RECYCLING MYTH, MALAYSIA AND THE BROKEN GLOBAL RECYCLING SYSTEM, 2018.

³ “GlobeScan and SustainAbility”, THE 2020 SUSTAINABILITY LEADERS, 2020.

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